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Síndrome K, a doença falsa que salvou vidas

Síndrome K, a doença falsa que salvou vidas

No outono de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, quando soldados alemães começaram a prender judeus na Itália e deportá-los aos milhares para os campos de concentração, uma doença misteriosa e mortal chamada Il Morbo di Ka Síndrome K“, varreu a cidade de Roma fazendo com que dezenas de pacientes lotassem os hospitais da região. Os detalhes da doença são incompletos, mas os sintomas incluem tosse persistente, paralisia e morte. Dizia-se que a doença era altamente contagiosa. Entre os hospitais, existia o hospital Fatebenefratelli localizado no meio da Ilha Tiberina, uma minúscula ilha em forma de barco no rio Tibre.

O Hospital Fatebenefratelli (oficialmente Ospedale San Giovanni Calibita Fatebenefratelli), construído em 1585, tem uma história de doenças infecciosas. No século 17, foi usado para quarentena de pacientes de peste, quando houve um surto de cólera em Roma em 1832. O hospital em virtude de seu isolamento, tornou-se um abrigo natural para os infectados.

As origens do hospital na Ilha Tiberina datam de antes de 1000 a.C., quando um antigo templo dedicado ao deus grego da medicina, Asclépio, foi substituído por um santuário dedicado ao Apóstolo Bartolomeu, um dos Doze Apóstolos de Jesus. O santuário fornecia ajuda para as populações locais de mendigos, pobres e doentes. Durante meados do século 16, a mendicidade foi proibida em Roma e o abrigo foi convertido em fabbriche della salute (fábrica de saúde).

Sobre a doença misteriosa não havia menção sobre ela nos livros de medicina, e fora a equipe do Fatebenefratelli, ninguém tinha ouvido falar disso antes. Parecia semelhante à “doença de Koch” ou “doença de Kreps”, que era tuberculose, uma doença terrivelmente assustadora na época. Embora os sintomas da doença tenham sido deliberadamente mantidos ambíguos, os nazistas se abstiveram de investigar o hospital ou mesmo de realizar buscas por judeus nas instalações por medo de contrair a doença. E foi assim que pelo menos cem judeus que estavam refugiados no hospital escaparam da morte. ” A síndrome K nunca existiu, foi uma doença fictícia.

A doença foi criada por Giovanni Borromeo, médico-chefe do hospital, com a ajuda de outros médicos para salvar os judeus e antifascistas que buscaram refúgio ali. Giovanni começou a fornecer aos judeus um refúgio seguro no hospital a partir de 1938, ano em que a Itália introduziu leis antissemitas. Um dos refugiados era Vittorio Emanuele Sacerdoti, um jovem médico judeu, para quem Giovanni permitiu trabalhar no hospital com documentos falsos. Outro médico psiquiatra e ativista antifascista, Adriano Ossicini, já havia sido preso várias vezes antes de encontrar trabalho com o médico-chefe. Ele juntamente com muitos outros médicos, mantinha uma base de resistência semi-clandestina no Fatebenefratelli.

Naquele outono, os nazistas invadiram um greto em Roma e muitos judeus fugiram para o Fatebenefratelli, onde Giovanni os admitiu como “pacientes”. Os refugiados receberam uma doença fatal – a síndrome K – para identifica-los dos pacientes reais. A letra K foi escolhida por causa do oficial alemão Albert Kesselring, Chefe da Sicherheitsdienst, que liderou as tropas em Roma e K também era a inicial do sobrenome de outro oficial nazista, chefe de polícia em Roma, Herbert Kappler.

“Síndrome K” foi supostamente uma doença neurológica cujos sintomas incluíam convulsões, demência, paralisia e, finalmente morte por asfixia. Os pacientes judeus foram aconselhados a parecer doentes e a tossir alto, afetando sintomas semelhantes aos da tuberculose, toda vez que algum soldado alemão aparecia no hospital por algum motivo. O truque funcionou. “Os nazistas pensaram que era câncer ou tuberculose, e fugiram como coelhos“, disse Vittorio Sacedoti, durante uma entrevista à BBC em 2004, sessenta anos após o evento.

Em 2016, Adriano Ossicini, de 96 anos relatou ao jornal italiano La Stampa sobre a invenção da doença: “A síndrome K foi colocada nos prontuários dos pacientes para indicar que ele não estava doente, era apenas um código. Criamos esses código para que o povo judeu pudessem ser misturados aos pacientes comuns. Quando um judeu saudável vinha ao hospital, recebia a fadada “síndrome K” em seus documentos, que significava “estou admitindo um judeu”, como se ele estivesse doente, mas toda a equipe sabia que ele estava saudável. A ideia de chamá-los de síndrome K, como Kesserling ou Kappler, foi minha“.

Em maio de 1944, o hospital foi invadido e cinco judeus da Polônia foram detidos. No entanto, o ardil salvou aproximadamente 100 refugiados. Após a guerra, Giovanni Borromeo foi homenageado pelo governo italiano ao conceder a Ordem do Mérito e a Medalha de Prata do Valor. Ele morreu em 1961, em seu próprio hospital. Ele foi postumamente reconhecido como um “Justo Entre as Nações“, pelo governo israelense. O próprio hospital foi reconhecido como uma “Casa da Vida”, pela Fundação Internacional Raoul Wallenberg, que defende em nome dos salvadores do Holocausto.

Fontes: 1 2

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